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26 de Junho, 2019 - 15:56
A trágica história por trás da foto de pai e filha afogados ao tentar cruzar fronteira dos EUA

Imagem, que gerou forte comoção mundo afora, ilustra o drama de milhares de migrantes que arriscam a vida ao cruzar a fronteira em busca do chamado 'sonho americano'.


A fotografia mostra os corpos de um pai e uma filha, de apenas 23 meses, abraçados na margem de um rio.




Óscar Alberto Martínez Ramírez e Angie Valeria Martínez Ávalos, de El Salvador, morreram afogados ao tentar atravessar o Rio Grande, na divisa do México com os EUA.



Na imagem, os dois estão deitados de bruços, com o rosto submerso na água - a menina está com o braço em volta do pescoço do pai, dentro da camiseta dele.



A fotografia, que gerou forte comoção mundo afora, ilustra o drama de milhares de migrantes que arriscam a vida ao cruzar a fronteira em busca do chamado "sonho americano".



"Eu disse a ele para não ir atrás do sonho americano, que não era fácil cruzar a fronteira pelo rio", lamentou Rosa María Ramírez, mãe de Óscar, em entrevista ao jornal ElSalvador.com.







A BBC decidiu publicar a foto nesta reportagem, mas alerta que alguns leitores podem considerar a imagem forte.



A tragédia aconteceu no mesmo momento em que os EUA e o México implementam políticas mais rígidas para conter o fluxo de imigrantes ilegais, principalmente da América Central.



Pelo menos seis pessoas morreram nos últimos dias.



Muitos migrantes dizem que estão fugindo da violência e da pobreza em Honduras, Guatemala e El Salvador, e planejam buscar asilo nos EUA.


Especialistas que criticam a política migratória do presidente americano, Donald Trump, sugerem que a abordagem linha dura está levando os migrantes a escolherem rotas mais perigosas para fazer a travessia.



De acordo com a Patrulha de Fronteira dos EUA, pelo menos 283 pessoas morreram ao tentar cruzar a divisa com o México em 2018 - mas ativistas de direitos humanos acreditam que esse número pode ser ainda maior.






Em busca do 'sonho americano'






Óscar, de 25 anos, e a filha Angie Valeria morreram afogados no domingo (23), enquanto tentavam atravessar de Matamoros, no norte do Estado mexicano de Tamaulipas, para o Texas.









Óscar Ramírez e a filha, Angie Valeria, morreram afogados quando tentavam cruzar rio na fronteira entre México e Estados Unidos — Foto: Julia Le Duc/AP


A imagem dos corpos foi registrada pela jornalista Julia Le Duc e publicada inicialmente no jornal mexicano "La Jornada".


De acordo com a publicação, Óscar e a mulher, Tania Vanessa Ávalos, de 21 anos, decidiram deixar no início de abril a região de Altavista, no sul de San Salvador, com a ideia de migrar para os Estados Unidos.



O casal teria parentes em Dallas, no Texas, que teriam garantido que conseguiriam emprego por lá.



Sendo assim, Óscar largou o emprego na pizzaria em que trabalhava e foi com a família para o norte.



"Implorei para eles não irem, mas ele queria juntar dinheiro para construir uma casa", disse Rosa Ramírez, mãe de Óscar, à agência de notícias AP.

Segundo Rosa, os três passaram várias semanas no abrigo para migrantes em Tapachula, Chiapas, no sul do México, onde conseguiram um visto humanitário.



Em seguida, foram para o Estado de Tamaulipas, bem na fronteira com os EUA, e ficaram aguardando uma entrevista para pedir asilo político.



Frustrados por não conseguirem ser atendidos, decidiram atravessar o rio no último domingo.



"Eles disseram que estavam com medo de como ficaria a situação dos imigrantes com a pressão de Trump", contou Wendy, irmã de Óscar, ao jornal "El Diario de Hoy".



'Ele voltou pela filha'






De acordo com o relato de Vanesa, eles foram até as margens do Rio Grande, na altura da cidade de Matamoros, com a ideia de atravessar para a cidade de Brownsville, no estado do Texas.



E procuraram um lugar calmo e tranquilo para fazer a travessia.



Óscar atravessou primeiro com a filha em seus braços. Depois de nadar um pouco, chegou à costa americana, onde deixou a menina.



Em seguida, voltou para ajudar Vanesa a cruzar o rio. Mas quando estava na metade do trajeto, percebeu que Angie Valeria havia se jogado na água atrás dele.


Ele voltou então para resgatá-la, mas ambos foram arrastados pela correnteza do rio.



Os corpos de Óscar e Angie Valeria foram encontrados na segunda-feira, no momento em que a foto foi tirada.



"O Rio Grande é muito forte. Parece um afluente suave, mas a verdade é que tem muitas correntes e redemoinhos", disse Julia Le Duc, a fotógrafa que fez a imagem, ao jornal britânico "The Guardian".



"Já vi muitas imagens de corpos, mas esta me sensibilizou. Você pode ver que o pai colocou a filha dentro da camisa dele para que ela não fosse carregada", acrescentou.









Qual foi a reação?






A fotografia foi comparada a outras imagens que viraram ícones de tragédias ao redor do mundo - como a do menino Alan Kurdi, refugiado sírio de três anos cujo afogamento causou consternação internacional.



O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, afirmou em sua conta no Twitter que o governo vai assumir as despesas de repatriação dos corpos e custos do funeral.



"Um dia vamos terminar de construir um país em que a migração seja uma opção e não uma obrigação, enquanto isso vamos fazer o que pudermos. Deus nos ajude", escreveu o presidente.



A ministra das Relações Exteriores de El Salvador, Alexandra Hill, pediu aos cidadãos do país, por sua vez, que parem de colocar suas vidas em risco tentando migrar ilegalmente.



Por sua vez, parlamentares democratas da Câmara de Representantes dos EUA esperam que a imagem pressione a aprovação de um fundo de US$ 4,5 bilhões para enviar ajuda humanitária à fronteira.



Vários especialistas sugerem que o endurecimento do controle de imigração imposto pelo governo Trump - e que teve uma réplica semelhante no México - está levando os migrantes a usarem rotas mais arriscadas para atravessar a fronteira.



"O que está acontecendo em termos de política de migração é uma vergonha: a ausência de um plano, improvisação, falta de estratégia", afirmou o pesquisador Javier Urbano, da Universidade Iberoamericana, no México, à agência de notícias AFP.









 

Fonte: G1
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